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Villain diary

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Bynn the breaker - Darren Korb

(Bastion OST)

  • 2 months ago
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Gregory o lixeiro.

07h45min

         Era uma nubilosa manhã de quinta-feira e as ruas da pacata cidade de Sant. Thorne aos poucos se tornavam opulentas. Trabalhadores despertavam com expressões vazias e, perseguidos pela sombra do sono migravam de suas residências para a cidade. Os ônibus que saiam do centro para os bairros estavam sempre vazios por estas horas. No ultimo banco do deserto ônibus que transitava pela Avenida Frigga Mater, sentado em silêncio estava um homem alto e magro, vestido com um vetusto sobretudo de napa zibelina que o tornava ilusoriamente maior. Seu cabelo era negro, comprido até os rijos ombros e oleado pelo suor seco; seu rosto, branco com a barba por fazer e os olhos, azuis, perdidos no mundo que havia para lá da janela. Uma vez ou outra alguns ônibus abarrotados perpassavam em direção oposta ao seu. Gregory era seu nome.

         Morava no subúrbio em um sobrado ladeado por muros altos de tijolos antigos. Sempre que caminhava pela rua de sua casa jurava poder ouvir o ronco de alguns vizinhos e os latidos de um cão a quarteirões dali. Naquele dia a luz era amena e o chão ainda úmido, chovera durante a noite. Dentro de sua casa, pendurou seu sobretudo, retirou seu sapato de couro e sola reforçada e caminhou pela penumbra. Haviam poucos moveis, alguns rústicos como sua cama e um pequeno guarda-roupa; uma poltrona de estofado de camurça avermelhado com descanso para os pés e uma estante com alguns livros organizados cronologicamente, seguindo a data de escrita. O chão estava limpo e os moveis reluziam o feixe da fraca luz que penetrava pela janela. Gregory retirou suas roupas de tons escuros se banhou e, ainda com o cabelo por secar, sentou-se em sua poltrona trajando roupas esportivas, pegou um livro e começou a ler.

14h21mim

         O homem fechou o livro que lia e rumou para fora de sua casa, calçando simples sandálias de tiras emborrachadas. A chuva tinha cessado a pouco, mas as nuvens ainda se mantinham baixas e volumosas, uma brisa fria soprou suas pesadas mechas de cabelo e cessou. O soar de pneus resvalando no solo e então a histérica aceleração de um carro, Gregory caminhou até o meio da rua, um carro surgiu numa velocidade acima da permitida. O homem abaixou e aguardou; O carro descontrolado ziguezagueou pela rua até trombar em um hidrante, o que o fez girar e colidir em um poste de luz que se encontrava a 4 metros a frente, com o impacto uma das rodas se soltou e veloz voou na direção do homem. Foi quando um Dálmata surgiu atravessando a rua no sentido oposto. No exato momento que a roda os atingiria, Gregory estendeu o braço, agarrou o cão e fixou seus inexpressivos olhos na roda que parou a centímetros de sua face. No ar, a roda continuava a girar e de súbito caiu no asfalto rolando para trás, o homem soltou o cão e voltou para sua casa. Começava a chover.

21h05min

         Gregory havia preparado Omelete e aquecido o feijão que restara da noite anterior, jantou a luz de um abajur em frente à janela da copa, onde se via apenas os telhados da vizinhança e o céu enrubescido pelas nuvens. Sorvia lentamente o vinho de uma taça, o sabor doce sobrepujava o salgado tempero do feijão em sua língua e o leve teor alcoólico afastava suas vontades ajudando seus olhos a se perderem no horizonte suburbano.

         A copa era o mais vazio cômodo de sua casa, tendo apenas uma mesa de frente para a janela e uma cadeira, fora o abajur cuja luz era fraca e amarelada. Após jantar, o homem lavou sua louça e foi se trocar, novamente suas pesadas vestes. Enquanto rumava para a porta, deslizou os dedos no cabo de um guarda-chuva, mas o abandonou e saiu, poucos passos depois uma fina chuva começou a cair, como um borrifo incapaz de molhar a napa de seu sobretudo.

         Após dois quarteirões, Gregory parou no ponto de ônibus para aguardá-lo; o ônibus estava atrasado três minutos, foi o tempo suficiente de um homem de boina e cuja lapela do casaco tapava o rosto se aproximar. Atrás de Gregory havia uma jovem mulher trajando um jaleco branco, sentada em um banco protegendo-se da chuva sobre o toldo metálico do ponto. O homem que se aproximava retirou uma das mãos do bolso revelando um canivete barato, porém devidamente afiado; a jovem olhava na direção oposta a procura de algum sinal do ônibus, quando o homem empunhando o canivete agarrou sua bolsa, ela gritou e assustada ergueu os braços para se proteger, já com a bolsa, o homem disparou em fuga, mas estacou subitamente e seus pés saíram do chão. Ouviu-se um grito seco de homem e a jovem mulher, desesperada, baixou os braços e procurou o ladrão, mas nada viu além de alguns papeis que caíra de sua bolsa e a boina que o homem usava jogada na calçada úmida. “Ele fugiu…” disse a mulher assustada, Gregory deu de ombros.

         O ônibus finalmente chegou e ambos, Gregory e a moça, embarcaram. A jovem disse ao motorista que acabara de ser assaltada e que não tinha dinheiro algum, o homem deixou que ela passasse. No dia seguinte seria encontrado o corpo de um homem com 40% de seu corpo fraturado no pátio de uma residência não muito distante dali, junto dele, um canivete e uma bolsa com documentos, entre eles um crachá com o nome de “Enfermeira Laura”.  Os oficiais alegarão que pela situação do corpo e do solo o homem deveria ter se jogado de uma altura de pouco mais que 30 metros, mas não conseguirão encontrar provas de onde e como.

         O ônibus seguiu seu rumo pelas escuras ruas do subúrbio em direção a avenida principal, Gregory como de costume, sentou-se no ultimo banco, distante de qualquer um dos cinco passageiros que estavam naquele ônibus; nestas horas eram sempre idosos a não ser ele e a jovem que ainda aflita se preparava para um plantão no hospital.

22h37min

         Parado em frente a um cinzento portão, Gregory aguardava o porteiro, que deveria ter cedido ao sono sentado em um vaso no banheiro. A guarita estava vazia, mas a chave que abre o portão girou, ativando sua abertura. Gregory adentrou e em seguida o portão voltou a se fechar, o estrondo causado pelo fechamento era moderadamente alto pelo desgaste dos amortecedores; o som despertou o porteiro que de súbito correu de volta a guarita e se deparou com o silêncio. O homem caminhava dentre os caminhões de lixo, estacionados ao redor do galpão de descarga de dejetos. Alguns outros homens já se reuniam em grupos em um burburinho frenético de piadas tão impuras quanto o miasma que por ali havia, mas Gregory não se importava.

         Ouviu um homem lhe chamar, era Arthur, seu colega de trabalho; de sua mesma altura, um pouco mais corpulento e com uma ampla testa devido as entradas de seu cabelo ruivo. Olhos aparentemente cansados, castanhos e o rosto coberto por uma barba alaranjada e levemente banhada pela cevada da bebida que terminara há pouco. Diferente dos demais lixeiros que trabalhavam em trios, Gregory e Arthur trabalhavam em dupla e recebiam mais por isto, eram também os primeiros a saírem e a terminar o serviço. Arthur tomou seu posto como motorista enquanto Gregory retirava seu sobretudo e vestia as luvas reforçadas, o caminhão deu partida, o homem agarrou as barras na traseira do caminhão e ambos partiram pelos portões.

         Em Sant. Thorne, durante a noite o centro industrial era povoado somente por mendigos e os camiões de lixo. Arthur sempre comentava que adorava aquela cidade, pois era muito bem educada no quesito higiene, raramente se via algum detrito fora dos latões, e ainda completava: “Assim, Gregory não precisa reunir o lixo com a sua magica, simplesmente faz seu trabalho com sempre fez”. A cidade vazia, Gregory subia no caminhão e se sentava no teto de costas para a cabine, lá ele exercia seu trabalho todas as noites ou, fazia sua “magica” como Arthur chamava. O caminhão seguia e diminuía sua velocidade quando passava pelos latões, Gregory estendia as mãos e os latões logo passava por sua cabeça e eram esvaziados pelo caminhão. O cheiro do lixo inundava o ar, Arthur as vezes dizia em voz alta o que tinha nos latões só pelo cheiro, Gregory as vezes acreditava apesar de sentir apenas cheiro de lixo.

         Arthur era um homem só, sua primeira esposa havia falecido e sua segunda morava com outro homem. Ele não reclamava, até achava graça e fazia comparações com as mulheres e o lixo, mas, depois, se contradizia dizendo o quanto eram bonitas e perfumadas. Há dias que andava com um largo sorriso, típico de quem tem cravado no peito a flecha do cupido.

         Arthur definitivamente era a única pessoa que realmente conhecia Gregory. Não se espantava com a habilidade do colega, dizia já ter visto muita coisa na vida, dizia muita coisa para um homem de 35 anos. Mas dizia, e não questionava.

05h50mim

         O céu era preenchido pela turquesa de uma nova manhã, Gregory e Arthur estavam sobre o caminhão enquanto sua fétida carga era drenada pelos metálicos tubos que vinham do galpão, Arthur bebia sua cerveja como sempre fazia após uma noite de trabalho, Gregory nunca aceitava, mas teimosamente seu amigo sempre lhe oferecia. Viam-se os topos dos caminhões que estacionavam e começavam a descarregar, via-se além dos cinzentos muros, além dos prédios também incolores, o vivo tom dourado queimando as bordas das nuvens que se mantinham fixas no céu, e aos poucos o sol surgia terminando assim com a patuscada de cores que compunham o amanhecer. Arthur sempre tinha uma história a contar, vezes sobre sua solitária vida, vezes sobre jocosos fatos que o fazia rir antes, durante e depois da conclusão de cada história. Segredou-lhe que estava apaixonado, o que era obvio; disse ser uma mulher de bem, diferente de suas anteriores esposas, esta tinha uma “beleza responsável”, e com um sorriso de orelha a orelha, disse que iria pedir sua mão.

No fim, ambos se despediam com um aperto de mãos e seguiam por caminhos opostos para suas vidas.

07h30mim

         Gregory olhava para a janela do ônibus, perdido entre os últimos postes acesos que passavam rapidamente por ele, corriam, enquanto do outro lado da avenida, os postes apenas caminhavam. Ouviu um suspiro e então um murmúrio, a jovem enfermeira que vira na noite anterior chorava, seu jaleco estava amarrotado e com uma mancha avermelhada sobre o bolso esquerdo, entre soluços ela murmurava injurias, “incapaz”, em seu reflexo na janela se via um feixe de prata fluindo de seus olhos até os lábios e então um longo suspiro e todo o vidro se embaçou; Na noite anterior, substituiria Dr. Igor que estava em viagem, e havia deixado a seus cuidados um paciente cuja saúde dos pulmões juntamente dos rins piorava e periodicamente deveria ser medicado. Ao chegar ao hospital fora barrada por estar sem seu crachá e perdera duas horas de seu expediente para obter um novo. Laura fora indicada entre as melhores para este serviço e quando finalmente chegou ao seu paciente, o encontrou sem batimentos. Buscou superiores, o paciente precisava urgentemente de uma intervenção. Laura fez ligações, reuniu cirurgiões, equipamentos, sala para a cirurgia, mas o paciente faleceu com uma parada respiratória durante a operação. “Eu tinha de medicá-lo…” Ela murmurava, “Dr. Igor confiou uma vida a mim”. Uma culpa que parecia pesar demais para o entendimento de Gregory.

         Caminhava pela calçada de sua rua quando viu passar apressadamente uma van no cruzamento à frente, era da mídia; Gregory atravessou a rua olhando na direção que seguiu o carro e viu um aglomerado de viaturas e uma ambulância, postos em frente a uma casa, os legistas recolhiam um corpo, a mídia as pressas saia para buscar informações. Não há nada ali além de um saco de ossos e mortalha e é só isso que irão saber. Entrou em sua casa, retirou seu sobretudo, seus sapatos, se banhou e buscou um livro em sua ordem ao lado de sua poltrona.

21h05mim

         O ônibus chegou e Gregory embarcou, entregou as moedas para o motorista e rumou para os últimos bancos. As nuvens se reuniam no céu, pelo vidro da janela o homem presenciou os primeiros pingos de chuva pouco depois que o ônibus penetrou na avenida, durante o trajeto, Gregory presenciou o bailar dos relâmpagos entre os prédios que surgiam em meio a treva enevoada daquela chuvosa noite, os morosos rugidos que seguiam após cada relâmpago faziam vibrar o chão metálico do ônibus. As gotas que escorriam do outro lado da janela se curvaram e deslizaram na direção oposta, o ônibus começou a frear, “Um poste está interditando o caminho” disse o motorista “Este é o único caminho que leva ao centro” completou. Gregory não se moveu, o ônibus parou a poucos metros do poste, este que tombou levando consigo parte de um piso de concreto onde estava instalado, a lâmpada havia estourado e a estrutura ao redor estava chamuscada, um dos dançarinos que Gregory admirava a pouco saíra do ritmo. O motorista pôs-se a pensar, mas parecia não fazer a mínima ideia do que fazer. Gregory não podia mover o poste, além do motorista havia mais um casal de idosos no ônibus, seria arriscar. Uma luz invadiu as janelas e depois o trovão, aquela tempestade parecia piorar. Passou-se meia hora, Gregory não podia mais esperar, fechou os olhos e aguardou; a oeste um relâmpago rasgou os céus, novamente o brilho invadiu o ônibus e em questão de segundos o poste que havia caído, fora lançado para frente, tomando uma posição vertical e abrindo caminho. O motorista se surpreendeu, manteve-se em silêncio por um tempo e então disse “Parece que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar”, assustados a senhora agarrada no braço de seu marido exclamou “Então parta antes que ele caia uma terceira vez!”. O ônibus partiu.

22h50mim

         Gregory parou ao lado da guarita, o portão cinzento estava aberto e o ultimo caminhão passou por ele, ao penetrar no estacionamento viu seu caminhão parado, ouviu chamarem seu nome, mas não era a voz de Arthur, “Gregory! Pensei que não viria” Seu chefe se aproximava, “Acabamos de despachar o seu parceiro, ele teve a cara de pau de me aparecer bêbado aqui…” Gregory disparou até o portão ignorando seu chefe. Naquele momento sentia que algo estava para acontecer, conhecia Arthur, sabia que o homem tinha bebida correndo nas veias, mas sabia também que ele não exageraria sem um real motivo. Rodeou o edifício e rumou para o caminho que Arthur utilizava para voltar para a casa, chovia, o sobretudo pesava, o cabelo molhado açoitava sua fria face, as ruas vazias e os latões de lixo repletos. Por todos os lados, os ecos dos trovões brigavam como feras disputando um território.

         Finalmente Gregory o encontrou, em meio a forte chuva, Arthur caminhava aos tropeções e cantarolava,“Laura! Meu amor! Por que se foi?!” a enxurrada invadia o meio fio e Gregory corria para alcança-lo saltando entre as poças. “Sua voz, seus soluços! Tão bela, poderia ter sido minha!” A voz lamuriante de Arthur se fundia aos trovões sobre os escuros prédios, “Por que se matou, meu amor!” e o terrível dueto se prolongava. As enxurradas se tornavam piores, no final da rua o córrego Eurídice transbordava se unindo as golfadas dos bueiros em um imundo rio corrente que arrastava galhos e placas de sinalização. Gregory com as aguas quase nos joelhos estava a 50 metros de seu amigo e via que mesmo andando com dificuldade, Arthur continuava a seguir. Um relâmpago rasgou os céus, a luz invadiu as ruas e os cegou, o melancólico canto cessou e quando Gregory deu por si, Arthur não estava mais lá; apenas as turbulentas aguas do rio que se formava a poucos metros, deveria ter sido levado pela correnteza ou caído em algum bueiro. Gregory foi tomado por um frenético desespero e começou a agitar bruscamente os braços, as aguas a sua frente explodiam abrindo caminhos que logo se restauravam novamente em mar, novos gestos, e o rio se rasgava e se rebatia. Gregory procurava seu amigo como um velho leão procura carne em meio a ossos.

         A chuva parou. Ouvia-se apenas o som da correnteza que levara seu amigo. Gregory se manteve imóvel, com os pés mergulhados e os olhos perdidos nas curvas que a pressão da agua provocava, passaram-se horas até que seus pés já não estavam mais submersos. Em alguns dias um corpo seria encontrado boiando no rio Aristeu, os peritosalegarão que o homem fora levado pela enchente que dizem ter sido causada pelo excesso de lixo nos esgotos. O corpo seria enterrado pela família de sua segunda esposa, em um tumulo ao lado de sua primeira, a 45 metros do tumulo da enfermeira Laura, encontrada morta dias antes em sua residência por envenenamento, a jovem se suicidou.

07h45mim

         O ônibus parou no ponto, Gregory desceu com suas roupas ainda úmidas, o cabelo gotejando e com os olhos azuis e vítreos como os de uma estátua. Enquanto caminhava pela sua rua, iluminada somente pela turquesa matinal, fechou os olhos e pode ouvir o bocejar de um homem a esquerda, o gargarejar de um senhor a direita, um longo ronco de uma senhora na casa que acabava de ultrapassar, mas foi um choro de um cão que chamou sua atenção. Ao abrir os olhos, viu a sua frente o Dálmata que salvara há um dia, Gregory gostaria de ter salvado Arthur como fez com o cão, sentiu-se incapaz. Abaixou-se para acaricia-lo, quando o mesmo deixou cair de sua boca uma boina imunda, o homem a pegou, o cão rosnou, mordeu a boina e se afastou. Os olhos de Gregory se arregalaram;… Talvez se não tivesse salvado o cão, seu dono, o homem da boina, teria preferido ficar em casa ressentido pela perda de seu amigo; a enfermeira Laura não teria sido assaltada, com seu crachá em mãos, teria medicado o paciente a tempo, e não haveria culpa, nem suicídio; Arthur teria o encontro com a mulher por quem estava apaixonado e não teria se embriagado e vagado irresponsavelmente pelas enxurradas.

Gregory estaria seco.

                                                                    Bruno Maciel

  • 3 months ago
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Jus Póstumos

         É indescritível o que se sente, mas posso lhes dizer que o mais próximo seria a sensação de letargia e a mente incapaz de gerar pensamentos. Mescle isso na impressão de estar sonhando, não se pensa nem se sente. Você ouve e sabe que aquilo não é um sonho.

         Ao abrir os olhos percebeu estar boiando, inerte em um mar negro sem litorais e sem ondas. Sentia-se sereno mesmo em meio um breu vago e silencioso como aquele.

_Duvidas. Abandone-as, de nada mais lhe servirão as respostas.

Disse uma voz baixa e um tanto severa, ao buscar sua fonte percebeu que curiosamente em meio o breu formou-se duas silhuetas. Sombras em meio a sombras, que aos poucos abandonavam as trevas tomando tons e detalhando traços, mesmo sem nenhuma luz para refletir ou ofuscar.

_Teus títulos e nomes devem ser olvidados. É agora o réu, teu ultimo titulo.

Soou uma segunda voz, suave e fluida, ecoante como a primeira. As silhuetas se revelaram. Dois homens ou assim se assemelhavam, ambos trajando túnicas pesadas; o da esquerda com seus tecidos de tom Borgonha tinha sobre o capuz a face feita de ferro escuro e gasto, em suas mãos também metálicas segurava um frágil bebê feito de porcelana, pura e alva.

_Sou o Tempo. – disse ele com sua voz severa.

_Sou o Sonho. – completou o segundo, a voz suave se originava em meio ao vácuo que sustentava seu capuz de cerúleo assim como toda sua manta, enluvado, suas mãos unidas seguravam uma esfera que alumiava tons de escarlate e purpura.

_Ouça-nos, somos seus três juízes e sentenciaremos agora vossos jugos. – disse o Tempo.

_Três? – Disse o réu – Perdoem-me, mas vejo apenas dois.

_Mas eu o vejo, réu. – Soou uma terceira voz tão ecoada e difusa que poderia tê-lo assustado, mas o réu sentiasse copiosamente pleno, quase inebriado.

_Temos tua vida como uma arvore tem as folhas; de tudo sabemos, até os mais secretos pensamentos. – Disse o Tempo.

_Até os mais íntimos sonhos. – completou o Sonho.

_Quando jovem o que fizeste com seu tempo? – disse o homem de ferro.

_O que sonhou, conte-me um sonho? – acrescentou o homem sem face.

_Busquei o melhor para minha vida – respondeu o réu – Busquei a fortuna dignamente. Mas não me lembro de sonhos, faz tanto tempo…

_ Desperdiçará seu tempo em infrutíferas ideias. Trabalhou, sim, tempo demais para sua idade – a voz se tornava metálica assim como sua face, e o Tempo prosseguia – Sua jovialidade enclausurada esvaneceu sem sentir a vida como seu corpo permitira.

_ Sonhas-te pouco, nunca ia além da realidade. Seu mundo era o material e sonhos não são materiais. – Não se via olhos em meio as sombras do capuz, mas sentia-se o peso de seu olhar – Um homem que pouco sonha, pouco evolui, pouco aprende sobre o que realmente se deve desejar. O homem não vive de pedras, mas as nuvens são capazes de atenuar a mais pesada das mentes.

O réu se manteve em silêncio.

_A frase mais cogitada em sua vida adulta fora “Não tenho tempo para nada” – Enquanto o Tempo dizia, seus olhos vazios pareciam analisar o bebê de porcelana expressando rudemente o que aparentou ser inveja. – Amou, mas não teve tempo para sentir a fragrância do amor. Sorriu, mas não teve tempo de ver seu sorriso em um espelho. Chorou, mas não bebeu de suas lagrimas… Pois não teve tempo.

_Disse uma vez a tua esposa quando no ventre um bebê ela tinha, que havia sonhado com um primogênito homem. Nasceu uma menina e então abdicou os sonhos para jamais se frustrar novamente. Mas a vida ainda corria em ti e chances de conceber um novo herdeiro faltaram-te somente quando julgou ter um pesadelo após sonhar ser chamado de pai por um menino. Estava então sozinho na vida. – Ao terminar a frase, a voz do Sonho equiparava-se a um lamento.

O réu anuiu, e por um tempo deixou-se levar pelas lembranças, os juízes se mantiveram em silêncio respeitando o devaneio.

_Imagino que a minha sentença não será das melhores, não é mesmo? – disse por fim. – O inferno será o meu destino? …Ou o limbo?

_Inferno não, réu. – Interpelou o Sonho – Sua cultura literária não se difere muito dos sonhos, mesmo existindo aqueles que creem mais em tuas histórias do que nas imagens vistas quando se vai além do sono.

_Nossa punição é dependente de qual fora teu maior erro em vida. Virás comigo se o teu tempo fora demasiadamente desperdiçado. – prosseguiu o Tempo – E tempo terá de sobra.

_Ou comigo se fora um homem sem sonhos. – concluiu o Sonho. – E nos pesadelos viverá.

_Não havia três juízes? Onde está o terceiro? – o réu questionou.

_Bem aqui, réu. Aguardando suas suplicas. – pela segunda vez soou a voz sem origem.

_E o que representa aqui? De que serviriam minhas suplicas? – esbravejou.

_Sou sua defesa. – Sanou.

Após um novo instante de silêncio o réu respeitosamente implorou.

_Ajude-me, julgam-me infeliz. Fui homem que desperdiçou a vida pensando ser capaz de tornar reais os sonhos com o opulento trabalho e fortuna. Busquei muito, mas desejei pouco, tornei-me incapaz de usar os frutos de meus esforços para outros motivos se não aqueles que me fizesse mais afortunado. Nada tive e agora sou prometido para nada ter. Defenda-me, eu suplico.

_Está feito. – Disse a voz – Não és um homem vivido apesar de ter envelhecido, nem um homem sonhador, mesmo se esforçando uma vida inteira para encontrar um objetivo. Mas viveu, e agora exerço o meu papel.

_És a piedade? – Disse o réu em tom vivo.

_Sou a morte. – respondeu. – Assim como os demais, defendo minha causa.

_Assim como os demais, promete-me sofrimento então.

_Prometo-lhe a morte e nada mais.

O réu fechou os olhos abandonando assim o seu ultimo titulo. Sentiu uma brisa fria atravessando o corpo e ao abrir os olhos novamente, estava sentado em um barco esculpido em madeira escura, navegando em um mar negro sem litorais. Ao olhar para trás, viu que um homem de manto negro remava vagarosamente na outra extremidade do barco, o mesmo ergueu uma das mãos que remava e puxou o capuz revelando uma face feminina, inexpressiva, de pele alva assim como os fios de seu cabelo, olhos negros porem vazios e perdidos, como a beleza lúgubre dos mortos. Parou de remar por um instante e disse:

_O homem que não vive o tempo e não sonha os sonhos, é um homem que espera a morte… …Na morte não a com o que sonhar, nem tempo para se contar. Apenas a Morte.

…

         O monitor cardíaco apitava sem sinal, após ser desligado, o silencio reinou. Sobre uma cama de um quarto de hospital havia o corpo de um homem velho desfalecido. Ao lado da cama, uma jovem enfermeira anotava o horário de falecimento, dizendo em tom baixo quase nulo:

_Pobre homem, Não deu tempo de dizer-lhe adeus, ele gostava de ouvir sobre meus sonhos, mas nunca contava os dele. Espero que tenha tido uma morte tranquila. – Apagou a luz do abajur e se retirou.

                                                                    Bruno Maciel

  • 3 months ago
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  • For the ReunionTsuyoshi Sekito

For the Reunion - Tsuyoshi Sekito 

(Final fantasy Adventure children OST)

  • 4 months ago
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Conheça-me

        Durante o dia trabalhou, a tarde fora tranquila e a noite mergulhou em uma leitura leve até sentir as linhas de Morpheus enlaçar suas pálpebras e trazê-las a baixo.

        Seu livro sobre o peito com os dedos de uma mão perdidos entre as paginas e os da outra entrelaçados nos fios de cabelo próximos ao rosto, a luz amena e uma leve chuva a deslizar nos postigos de sua janela. Um sono impossível, quase violador, prendendo-lhe a consciência e afastando a de seu corpo. E ela sonhou, sonhou que ouviu, avistou e sentiu com tanta veracidade que por um instante duvidou de sua sanidade.

_O sonho é seu – disse uma voz masculina – Mas ousei invadi-lo e moldá-lo como meu.

        As palavras pareciam ser formadas por ideias que fluíam em uma fala mansa e tão familiar que poderia jurar ser ela mesma sua fonte. Seus olhos se abriram, nauseados e confusos; Sentiu um pingo úmido no rosto, ouviu um rugido ofuscado de um trovão longínquo, a imagem de um céu cinzento se formou e sentiu subitamente os membros de seu corpo se mexerem como que prontos para um comando. Estava deitada em um chão frio e acidentado, ouvia sons de pingos e goteiras características de “uma chuva que cai lá fora”, ao virar o rosto viu que havia pequenas poças ao seu redor onde as gotas de uma suave e aleatória chuva teimavam em cair, e caia com gotas, mas nela só um suspiro de agua, como um borrifar.

_Não sei como podemos nos conhecer, temo que pessoalmente não tenhamos um assunto que realmente vá nos apresentar. – A voz ecoava em sua mente e nas nuvens cinzentas do céu – Temo que virtualmente não seja possível mostrar minhas características além da escrita… Definitivamente um contato virtual.

        Com as mãos no chão ela se ergueu e descobriu que estava sobre um largo pilar de uma onírica pedra branca símile ao mármore cujo topo havia se partido, isso explicava a superfície acidentada, mas não aquela chuva paradoxal, ela caia, mas tão intercalada e dispersa que não passava de um interminável chuvisco. Ao redor havia outros pilares, menores, maiores, metades tombadas, tudo envolto de agua, equiparável a um mar com a calmaria de um lago, as únicas ondas eram as concatenadas pelas gotas dispersas da chuva que se amainavam umas sobre as outras. Não sabia se eram profundas aquelas aguas que refletiam perfeitamente o céu nubiloso.

_Só ouço a sua voz, quando irá deixar de ser virtual? – disse ela enquanto seus olhos se perdiam procurando algo entre os pilares que se prolongavam em seus reflexos – Onde está?

_Curioso você dizer isto. Acredito que já tenha entendido a essência deste encontro – ele surgiu, como que de pé sobre um espelho, caminhando sobre o mar silencioso na direção da mulher.

_Te vejo, te ouço, mas nada disso é real – seus lábios não pareciam se mover e seus olhos fixos no homem que se aproximava.

_Mas me conhecerá, sem me ver, sem me ouvir, virtual e não virtual. Você sabe que eu estou aqui… - ele respondeu e permitiu um instante de silêncio.

        A beatitude era tanta que o frescor, a brisa, a gravidade e os melífluos sons eram agradáveis e imparciais de tal forma que a conversa tomava todo o foco das atenções e fazia falta perante o silêncio.

_Quantas pessoas já se apresentaram a mim, eu as conheci, por que prefere assim? – do alto do pilar ela o olhava com uma inconsciente superioridade – Por que não como qualquer outra pessoa?

_Talvez eu não saiba como fazê-lo, não com você. Talvez eu simplesmente prefira dizer e ouvir o que é necessário com uma simples troca de olhares – ele respondeu olhando-a de baixo, estacou e prosseguiu dizendo – Sou tudo o que os outros são, mas sou eu e não os outros. Acredito que já ocorreu de você se descrever para alguém assim como já ocorreu comigo, mas sei que seriam descrições triviais. Características são encontradas como conchas deixadas por ondas, eu não posso lhe dizer como são todas as conchas que ainda estão por vir e nem você pode, mas se me permite, digo-lhe que em mim falta a vergonha para probos atos e coragem para ações desnecessárias, digo também que sou uma criança vestida de homem, e um homem um tanto quanto perdido no mundo das crianças. Mas sou homem, como qualquer outro do gênero Homo, e tenho a mesma capacidade mutável como os de minha idade. – Ele se calou, um trovão ecoou em suas costas, o som se perdeu entre as nuvens e ele retomou –

 _O que poderia ser interessante em mim é uma questão delicada, pense o que lhe chamaria atenção em alguém, agora analise o que há em você que chamaria a atenção de alguém, compare estes dois tópicos e ressalte os opostos. Curiosamente pessoas que se interessam por outras que pensam da mesma forma, encontram boas amizades. Já as que se interessam por outras de pensamentos parecidos, mas ações opostas encontram uma relação um pouco mais agitada. Fisicamente falando, como polos opostos. …Porém existem fatores para cada caso. Idade, educação, cultura, intelecto, conceitos… Você pode se interessar por minha confusão, ou então repudiá-la. Definitivamente é impossível se interessar por alguém a primeira vista, além do que é visto. Que inicialmente fora o que ocorreu aqui. Você me prendeu pelos olhos, que para um homem é algo comum.

        Cada palavra dita pelo homem era facilmente absorvida por ela que quase vaticinava suas frases, perguntando-se se fora ele mesmo o arquiteto daquele sonho ou se ele não era nada além de uma simples imagem construída pelo seu próprio subconsciente.

_Está preso pelos olhos, não sabe o que há de interessante em ti e o que o interesse em mim. Não entendo sua conclusão. – a ilusão de um olhar superior começava ceder ao real, e do mesmo olhar eram lançadas as flechas da duvida.

_Bem dito, mas não houve conclusão e… Sobre o que há de ouro em ti é algo que eu gostaria de concernir. Não sou velho nem vivi o bastante para me autodenominar maduro, mas a partir dos anos que deixei de me interessar apenas em meus brinquedos e comecei a ver o mundo como uma grande casa de bonecas até os dias atuais, foram pouca as vezes em que uma forte chuva pairou sobre minhas turvas aguas. E como pode ver quando finalmente regeu uma verdadeira tormenta, minhas estruturas não estavam preparadas para tal, mas não atroz o suficiente para derrubar meus alicerces e por mais baldio que esteja, mantenho-me imutável. – Novamente o silêncio. Um bramido quase nulo no horizonte, o gotejar nas poças e nada mais além do silêncio. Ele manteve os olhos fixos e inexpressivos sobre os dela, respirou profundamente e prosseguiu – Agradável, porém silencioso. Já seriam duas conchas encontradas, ou talvez duas que unidas ocultassem algo a mais. Não posso lhe dizer, é raro se deparar com uma pérola. O que me interessou foi este desafio, ao ter meus olhos pegos por ti, senti as nuvens de meu céu mais carregadas, a brisa se tornou vento, meus alicerces estremeceram…

        Uma onda se assomou sob os pés do homem, ganhando altura e rumando para o pilar; Enquanto o erguia a onda coniforme tomava uma nova forma semelhante a uma grande mão feita de agua que lentamente se desfez ao deixa-lo em seu destino. O homem estava frente a frente com ela, ao se desfazer as aguas da onda invadiram o topo do pilar molhando os pés desnudos da mulher. Ela pensou sentir os dedos dos pés gelarem e o corpo arrepiar, até ouvir novamente a voz do homem que agora ao seu lado assumia um tom imponente, roubando sua atenção. Sua presença era real e nesse instante ela duvidou estar sonhando.

_…E são as suas ondas que me interessam, pois não há mar sem ondas.

        Seu corpo arrepiou novamente e um trovão a despertou. Sentia frio, o vento havia aberto sua janela e uma tempestade se formava lá fora. Ainda inebriada pelo sono, sentiu no rosto alguns pingos de chuva que penetravam pela sua janela carregados pelo vento, era uma sensação agradável, um silencio agradável.

                                                                    Bruno Maciel


Cymbeline - Wilhelm Ferdinand Souchon

  • 5 months ago
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Somos pedras e sabemos que o tempo é como a água de uma cachoeira capaz de nos mudar e moldar; mas somos pedras.
                                                                    Bruno Maciel
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Somos pedras e sabemos que o tempo é como a água de uma cachoeira capaz de nos mudar e moldar; mas somos pedras.

                                                                    Bruno Maciel

  • 6 months ago
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De Ortro a Fênix

         O tempo, minha mais presente companhia, meu fiel deletério. E é dele, o tempo, que faço a tinta de minha mais longa história. Se não foi em meu lustro mais vivo que ele se tornou indelével como o frio de minhas mãos. Naquela noite em que meu corpo ainda se esfriava de meu ultimo dia, que senti o calor de meu coração se esvair pela jugular e o choque de meus lábios febris com os enregelados e sanguíneos lábios de minha dama.

         Que tempos foram estes, em que a noite era tão bela quanto eterna. Os gemidos dos amantes, não de suas bocas, mas de suas almas; eu os ouvia e os aguardava. Mas agora o céu noturno pesa como a tampa de um caixão, o horizonte é sufocante e a lua não passa de mais um neon. Sonho com as lembranças dos que lutaram para matar minha sede e morreram vitoriosos; os vejo sorrir a noite e grito de dor quando os vejo sorrir ao dia, pois minha consciência queima sob a onírica luz do sol. Estou exausto, do mesmo sabor que nutre minha eterna senda, dos mesmos lampejos de amor sem futuro induzidos pelo meu cortejo fatal. Já se foi o tempo em que meus olhos sorviam mais vida que meus caninos e mesmo que meu espírito não vague pelos campos celestes ou onde a dor tarda. Partirei agora para o meu alvorecer final.

         Nesta noite provei de meu ultimo êxtase. A jovem moça que observei por incontáveis noites, protegendo-a e tornando-a minha mais preciosa joia, e pelas mesmas noites resisti à sede, mergulhado somente na arquitetura de meu ultimo ato. O mel nunca me fora tão doce.

         O pináculo da catedral fora a minha escolha, onde eu observava os casais enamorados, ouvia suas poesias e me apaixonava pelas minhas vitimas da noite. Já sinto o mal estar da alvorada, meus sentidos atormentados, mas minha consciência é plena, pois há muito abdiquei o medo. Oculto na pequena abobada do sino, eu aguardava o meu momento. Já não a mais volta, em breve os raios invadirão os baixos postigos e ferverão minha seda e minha camurça. Eu poderia gastar meus últimos minutos relembrando de boas lembranças, mas não encontraria nenhuma; eu já não existia, pois as únicas lembranças que me restavam era a de uma família que nunca tive, um amor que nunca me pertenceu ou uma paisagem da qual nunca vi. As lembranças de minha ultima vitima.

         Havia muito tempo que eu não ouvia o cantar dos pássaros, era o único som lá fora, uma agradável marcha fúnebre composta por Andorinhas e Pardais. De olhos fechados agucei minha audição e pude ouvir sussurros se tornarem burburinho; o caminhão de lixo passava, uma loja ou outra abria mais cedo do que de costume, alguns ônibus vazios começavam a aglutinar trabalhadores e quando finalmente abri os olhos tremi ao ver a luz turquesa que invadia pelos postigos. Meu tempo se esgotou, a noite havia partido e levado consigo meus pensamentos, agora eu apenas observava o tom da luz que amena penetrava pelos cantos das janelas. Com o tempo meus olhos já não conseguiam se manter inteiramente abertos, minha audição e olfato atordoados, apenas sentia que o dia chegava, o tom turquesa se tornou resplandecente em um nível que não pude mais observar. Levantei-me e fui em direção a porta que leva ao terraço da catedral, para meu patíbulo, sem saber se ainda me manteria hígido ao completar abertura da porta, ou se minha mente seria a ultima a se tornar cinzas.

         Ao tocar nas maçanetas da porta queimei minhas mãos, mas não dei importância, mantive as mãos nas maçanetas sentindo o cheiro de tecido queimado, minhas vestes começavam a se aquecer junto a meu corpo. Girei as maçanetas e puxei as duas abas da porta, ela abriu e a luz penetrou não só no cômodo como também em minha carne. Era impossível ignorar a dor, a luz era como uma parede maciça que me esmagava; comecei a caminhar e me senti sob a lava fresca de um vulcão recém-desperto. Minhas vestes vitimadas pela minha existência se esfarelavam e caiam de meu corpo, o cheiro de minha carne em brasas era confuso, pois a dor tornava meus sentidos dispersos como as cinzas que a brisa matinal levava. Meus olhos estavam fechados, mas minhas pálpebras ardiam e querendo ou não em algum momento eu os abriria, pois a carne era incinerada como se banhada a nitroglicerina. Então os abri, com dificuldade controlei minhas pálpebras e meus olhos se tornaram cegos com uma rapidez atordoante, mas durou o bastante para eu ver a sombra de um anjo a minha frente, eu caminhava em direção a estátua do arcanjo Gabriel que erguendo sua espada em chamas consumava meu martírio.

          Meu fim poético. Mesmo cegos, meus olhos se encheram de luz, luz que penetrava pela retina e ofuscava minha alma, as chamas invadia meu corpo como se meus olhos fossem portas que acabavam de ser arrombadas, o fogo descia pelas minhas veias e vasos como se fossem estopim e meu sangue amaldiçoado fosse pólvora, a dor era tanta que eu estava entre o consciente e a inexistência.  Ergui meus braços tisnados, sentindo o imolar de minhas mãos, e continuei a caminhar na direção do anjo que eu ainda era capaz de imaginar a minha frente. Cego e surdo, só me restara o tato que cruel me punia por toda tristeza que teci durante meus séculos.

         Cai de joelhos, sentia as labaredas sobre meu corpo como se fossem lençóis que de pouco a pouco me cobriam por completo. Finalmente deixei de sentir dor,  senti como na noite em que me tornei eterno, minha vida por um fio, minha respiração contada, eu não sentia mais o meu corpo e minha consciência se esvaia como fumaça. Era bom afinal, a sensação de paz após tanta dor e saber que estou prestes a descansar. Finalmente.

         E tantas vidas que se foram para tornar a minha contínua de nada serviram, pois com minhas próprias pernas cheguei ao fim de minha senda. A vida e a sobrevida de nada valem se trilhadas só. Noites e noites quis alguém para conversar ou consolar, mas quando encontrava, sorvia suas vidas como se sorve um bom vinho, em silencio, à luz amena, inebriado no perfume e no sabor de um fim.

                                                                    Bruno Maciel

  • 6 months ago
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O deletério, calor que desarma, cega e afoga no libidinoso suor que deslisante em curvas nos leva suspiros e faz sentir na boca o sabor da carne.
                                                                    Bruno Maciel
  • 6 months ago
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Destino cruel

         Era madrugada, por volta das cinco ou seis horas, acordei com o rosnar de meu cão, de súbito me levantei rumando para a cozinha e pensando ter de espantar mais um gato que veio comer sua ração. Resmungando sobre a covardia do canino destranquei a porta da área e acendi todas as luzes a fim de ver o que ocorria ali. Meu cão surgiu, latiu para mim, e olhou para trás como se quisesse mostrar algo; fui com ele e me deparei com uma cena que me fez pensar. Era um rato, grande demais comparado aos ratinhos que matei quando criança, cinzento e com uma longa cauda. Não me assustei, mas parei no caminho me afundando em uma curiosa angustia. Teria de matá-lo.

         O animal estava imóvel, inicialmente pensei estar morto até ver um movimento em suas orelhinhas e focinho, meu cão o rondou e latiu, mas o pequenino não se moveu. A hipótese de meu cão tê-lo ferido me fugia, apesar de não ser um gato, meu cão era uma mistura de dócil com covarde. Vi que sua tigela de ração estava vazia e logo pensei: O rato pode ter comido a ração e por serem flocos grandes demais para sua garganta algum mal roído pode tê-lo feito engasgar e o asfixiar, por isso o rato não se movia. Eu poderia estar errado é claro.

         Minha mãe surgiu na porta, viu o animal e com seu velho pavor de ratos começou a vituperar ordens para que eu o matasse, eu já não tinha escolha, minha esperança de espantá-lo já não existia, era questão de tempo. Não sou um homem covarde, quando criança, quebrei o pescoço de um ratinho nas mãos, mas quando criança não sabia o peso de uma vida, não media pena ou diversão, tudo era novo, tudo era fácil. Hoje sinto que seria mais fácil tirar uma vida humana que uma animal, cuja culpa de seus atos não passam de seu instinto. Nada planejado.

         Em mãos uma vassoura velha com a base de plástico que serviria como uma guilhotina, e cerdas gastas que amorteceriam o golpe prolongando a dor do pobre animal, que falta de sorte. Bati a vassoura no chão próximo ao pequenino visando fazê-lo correr, em vão, seu corpo apenas se contraia com medo e meu cão agitado com minha intenção de matar começava a latir e rodeá-lo como se quisesse destruir a sanidade do pequenino o inundando de pavor. Tive vontade de acertar meu cão.

         Minha mãe chamou-me de covarde, mas disse isso pelo vão da janela, bem longe dali. Estava farto, não deixaria que aquela dor me tomasse. Posicionei a vassoura sobre o animal, visando golpear sobre o pescoço, segurando firme o cabo previ que seria necessário mais de um golpe já que as cerdas o amorteceriam. Eu era um algoz, minhas vestes negras não se passavam de uma camisa velha e uma roupa de baixo, fresca demais para aquela noite fria.

         Pedi três desculpas, foi como uma contagem para mim… Meu cão se calou, minha mãe se calou e a longa calda se contorceu, minhas mãos firmes no cabo o apertaram consideravelmente contra o chão, algumas cerdas escaparam com o impacto, pensei ter ouvido um ruído, um gemido. Ergui a vassoura e vi a deformação em seu pequeno pescoço, devo ter atingido a caixa torácica, a calda ainda se mexia e sem pensar golpeei novamente, desta vez liberando o peso de meu corpo sobre o cabo, as patas traseiras agitaram-se numa tentativa de empurrar a base da vassoura, em vão. A calda cessou seu chicotear, ouvi um pequeno estralo, definitivamente era o romper de sua cervical, o rato estava morto, mas teimei em golpeá-lo pela terceira e ultima vez. Lentamente percebi que minha mãe dizia algo e que chuviscava nas telhas sobre a área, eu saia de um transe que por mais curto fora longo demais. Por um momento pensei ter matado algo além do rato e procurei meu cão, ele estava ao meu lado curioso para ver se o rato ainda vivia. Coloquei o pobre moribundo em um saco plástico e com um nó lacrei seu túmulo, seu breve cortejo durou apenas o descer de doze degraus da escada de minha casa, abri o portão e depositei o saco entre os outros do lixo.

         Finalmente voltei a me deitar, começou a chover e só com o som das gotas de minha amada chuva pude deixar minha consciência livre no mundo dos sonhos.

                                                                    Bruno Maciel

  • 6 months ago
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Entering the Stronghold - Denny Schneidemesser

  • 6 months ago
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Sobre um barco de ambições,
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